18.12.13

porque a Escrevente não esquece de lembrar da Morte

SE EU MORRESSE HOJE ou DAS FUTILIDADES HUMANAS

a gaveta do escritório desorganizada
uma unha ainda encravada
um presunto vencido na geladeira
minha blusa preferida: na costureira
- com que roupa seria enterrada?!

Curiosa da Vida




13.12.13

porque a Escrevente nunca é ela mesma

TRANSTORNO DISSOCIATIVO

poeto minha sombra, mais que minha luz
meu luto, mais que meu gozo
meus vícios, mais que minha justeza

poeto meus eus, mais que eu mesma




23.11.13

porque a Escrevente sente o sabor da ausência

QUANDO TU NÃO ESTÁS

eu te invento
no frescor do vento
na crista da onda
na lua redonda
de um verso abrolhado
neste meu poema enrolado
e assim
eu te tenho ao meu lado

Curiosa da Vida



23.9.13

porque a Primavera ilumina a poeta

EQUINÓCIO da POETA

- dia e noite do mesmo tamanho
sua sombra do tamanho dela mesma
sua fome do tamanho da sua morte
sua vida do tamanho do seu nada

- mas, a cada dia, o dia maior que a noite
a luz maior que a sombra
a fome maior que a vida
ela mesma, maior que a morte

desabrocha a poeta
do tamanho da Primavera

(Curiosa da Vida)




3.9.13

porque a Escrevente se sente avelhentada






















AVELHENTADA

a garotinha perdida
já velhinha - encontrou-se:

esteve presa em fotografias antigas
de momentos esquecidos da infância
quando seus olhos ainda sabiam ver
a magia do tempo à sua frente

eram tantas as possibilidades de existência
(da sua existência!)
que o mundo se reencaixava
a cada novo pensamento seu
recriando-se
quadro a quadro
como a reprodução de um filme em câmera lenta:
o filme de sua vida
(de suas possíveis vidas)

um filme - que hoje sabe
fixo em uma cena só
descorado pelo tempo
terá o final de todos os filmes
- virar pó

(Curiosa da Vida)

20.8.13

porque a Escrevente poema dores


POEMAS

são uma junção de fonemas
a expressar teoremas
que traduzem emblemas
e nos liberam das algemas
para percebermos o esquema

..

nunca quis escrever poemas
nem viver queria
quanto mais escrever poemas


não fosse
esse nó na garganta
quando cruzo o brilho de um olhar
em um dia de desesperança

não fosse
esse sufoco no peito
quando vejo meus iguais pelas ruas
em tamanha dissemelhança

não fosse

mas é

os poemas passam por mim
revelam-se e imploram:
escreve-me ou te devoro!

(Curiosa da Vida)

13.8.13

porque hoje, o meu amor foi embora

AMORTICÍDIO
(porque hoje, o meu amor foi embora)

a desilusão me embaça os sentidos:
- seria a Dona Morte ali, na penumbra?

caso seja, aceito a visita
- leve-me para o nada
para sua escuridão aconchegante
em um último abraço de mãe

mas saiba
resta-lhe apenas um corpo seco
oco
sem mim

pois eu
eu sou uma outra

sou quem renasce a cada dia
em mim
sem memória de si
etérea
(amortecida já, pelo amor que lhe cruzou)

Curiosa

30.6.13

porque o corpo da Escrevente já não lhe comporta



VELHICE

a poeta é uma fingidora

finge tão completamente
que chega a fingir que é vida
a morte que deveras sente

(Curiosa)

24.6.13

porque a Escrevente está nas manifestações pelo Brasil afora

MEUS PORQUÊS

porque os que saqueiam e depredam me representam
porque os que têm e os que não têm partido me representam
porque a polícia me representa

porque os que têm fome e frio me representam
porque os sem-teto e os sem-terra me representam

porque os explorados e os discriminados me representam
porque os marginalizados e os revoltados me representam

por quê?
porque são/somos seres humanos ...
cada um de nós ...

(...)

enfim - essa massa sem direção
nunca antes vista - fenômeno do Facebook
me representa ...

(...)

por isso - mesmo não indo às passeatas
estou nas ruas - representada por cada pessoa
em todos os lugares ...

sinto-me muito culpada, pois nunca estive tão alienada do mundo fora de mim,
em toda a minha vida ... eu, que sempre fui militante, sindicalizada e filiada a um partido ...
eu ... ando pensando somente em mim ... depois dos 45 anos, descobri atitudes minhas,
esconderijos meus -  esconderijos que eu não assumia, dos quais eu fugia
(ainda que vivesse perdida neles) ...

atualmente, estou com problemas no trabalho ... problemas de relacionamento ...
eu me descobri irritável e irritante ... nunca estive mais irônica ...
falo o que eu penso do que eu vejo ... magoo, enfureço ...
(estados emocionais que, pensava - já havia dominado em mim)

sim ... é difícil trabalhar com meus colegas de trabalho ...
são muitas diferenças na forma de pensar ... eles são conservadores e alienados ...

à começar, todos são favoráveis à pena de morte ... partindo dessa ideia,
não há como fazer qualquer debate sobre as situações diárias que ocorrem
na humanidade, pois o melhor, para eles, (melhor esse, repetido-me diariamente)
seria que matássemos todos os marginais e dirigentes do planeta ...
ou, no mínimo, dar-lhes pena perpétua ...

dizem isso sem perceber que estão sendo ditatoriais ...
sem relevar o peso da vida humana ... que todos somos iguais ...
que apenas vivemos em uma sociedade desigual ...

os marginais, assassinos, ladrões também me representam ...
são seres humanos, doentes - vítimas da situação econômica em que vivemos ...

neste semestre, estive ácida, mau-humorada, com certo rancor no coração ...
cansada do mundo ...

e tenho mais o caso de meu irmão, doente, que necessita de transplante de órgão ...
que está quase morrendo ... antes dos 50 anos de idade ....

enfim, estou arrasada ... mas me sinto representada nas ruas ...

Miris Maria Weingartner (olha p'ra nós, Simon!)
1987 -  Porto Alegre/RS

18.5.13

porque a Escrevente descobre seu glaucoma


foto de Evgen Bavcar


















MORREM-LHE OS OLHOS FÍSICOS

e só então vê modos
(quase esquecidos)
de ver

vê que o azul celeste nasce
da fraternidade humana
- pois a fraternidade
lhe cria um bem-estar
interno de grama fresca
e céu azulado

vê que o amar (claro!)
vem do amarelo solar
- pois cada ato amoroso
lhe aquece o coração
a ponto de queimar

(...)

finda o escrever
pois lhe embaçam os olhos
lágrimas - que pode ver
caem-lhe verdemente
(num verde tom de perseverança)

(Curiosa)

26.4.13

porque a Escrevente pensa na Morte - diariamente

DONA MORTE

tudo
já foi dito
do momento de sua visita

mas
não me contaram
que viria todos os dias

e que a cada vez
a decisão seria minha

(Curiosa)
..

* (e que seria
 sempre único o instante)

(*palavras de meu amigo Assis Freitas, que arrematou o poema com majestade)




7.4.13

porque a Escrevente há de lembrar de esquecer


SOBRE UM AMOR PLATÔNICO II

de repente
na multidão
uma voz
!
!
¨
não é

(...)

a cada dia
esqueço teus olhos
esqueço teu cheiro
esqueço teu jeito

te esqueço

mas tua voz
reverbera
(ainda)
em meu ventre
(autônoma!)

sobe-me
e desce
a kundalini

!!

goza-me
(louca!)
teu riso

que não ouço

teu riso
que esqueci

(Curiosa)


6.3.13

porque a Escrevente precisa de palavras para fazer amor

AO PRÓXIMO AMOR: INFORMAÇÕES BÁSICAS

cada gozo
me requer horas
de pele a pele

nesse tempo
as palavras me seduzirão
mais que o toque

não, não fiques em silêncio
(senão em poucos dias especiais)
pois cada palavra certeira
me molha ao êxtase

e do clímax
também
me trará de volta a tua voz

as palavras
dentro do tempo
definirão o tempo
de minha pequena morte
(e definirão se ela existirá)

então
meu próximo amor
tuas palavras 
serão o nosso tempo

(Curiosa)




23.2.13

crossdresser

CROSSDRESSER

tem nuances
de rosa
na alma

umidade feminina
nas entranhas

poderes uterinos
no pênis

sabor de poesia
no olhar

(Curiosa)

..



11.2.13

porque a Escrevente volta a entrever o Poema

METAPOÉTICA

o poema
existe por si só

vez que outra
conseguimos decifrá-lo
decodificando-o em palavras

o poema
é como o reflexo de uma estrela:
quando nós o escrevemos
ele já não está mais lá

(Curiosa)





6.2.13

Porque a escrevente ficou sem título, mais uma vez

SOBRIEDADE

somente por hoje
eu não te lembrei
eu não te fumei nem te bebi

somente por hoje
eu não te chorei
eu não te amei
não te odiei
e nem mesmo te sofri

somente por hoje

(Curiosa)


4.2.13

SOBRE OS MORTOS DE SANTA MARIA/RS

SEM NOME

ficar sem o filho ainda não tem nome em nossa língua ... em nenhuma língua, que eu saiba .... existem órfãos, viúvos ... mas, não conseguimos nomear a perda (tão trágica!) de um filho (ainda tão jovem) tamanha a dor que se sente ... não conseguimos dimensioná-la em uma palavra ... desesperança? desespero? ressentimento? ódio? revolta? como sublimar isso? não sei ... nem sei como alguns pais e mães conseguem falar com a imprensa logo em seguida ao fato ... eu estaria gritando/brigando com o Universo, aos prantos chorosos ... de mal com Deus ...

os Cristãos dizem que Deus não nos dá um peso maior do que aquele que podemos carregar ... Nesse caso, eu nunca perderei minha filha para uma morte tão trágica, pois eu não ficaria viva depois disso ... é um fardo pesado demais para mim ... Admiro aqueles que continuam ...

está pessimista, este meu escrito?
não ... realista, para mim ... eu não sobreviveria a isso ...

aos pais e mães: eu sinto ... profundamente ...
caso sirva de consolo, eu acredito que saímos dessa vida para outra melhor ...
não acreditasse nisso, já teria me matado há muito tempo ...

..

de qualquer forma, ainda quero escrever mais sobre essa tragédia toda, pois me surpreendeu que o chefe de bombeiros de Santa Maria, por exemplo, em uma entrevista, afirmou que NÃO DEIXOU suas filhas, de 18 e 20 anos, NÃO as deixou ir à boate.

impressiona-me quem alguém consiga impedir suas filhas adultas de fazer o que queiram ... que tipo de jovens ele está criando? pessoas nulas e sem vontade própria, parece-me ... não podemos impedir que nossos filhos saiam para o mundo. podemos (e devemos) apenas orientá-los e, por outro lado, brigarmos para que haja segurança fora de nossas asas  ...

que bom que agora se estão vistoriando as casas noturnas de todo o país ... e o balanço só mostra o descaso do poder público, em permitir que tantas casas estivessem funcionando irregularmente ...


18.1.13

porque a Escrevente não tem dormido bem

SONO

é a alma
querendo sair para passear

é quando
um outro Eu
me toma o lugar

e paralela dimensão
posso vislumbrar

(Curiosa)

.....

sim ... tenho vontade de dormir ...  pelo dia afora ... noite adentro ... talvez durante uma semana ... e só então acordar novamente para este mundo externo (terrivelmente imperfeito) que criei para mim ... tenho andado introspectiva e solitária ... e tem sido bom ...

o cansaço que sinto é que me traz a imperfeição do mundo externo ... queria poder fazer todas as atividades que faço ao dia (trabalhando com carga horária de 12h) sem me cansar como me canso, atualmente ... mas ... essa é a vida ... nascemos, crescemos e morremos ... impreterivelmente ...



6.1.13

porque a Escrevente fez um plágio de Vinícius de Moraes

SONETO DA inFELICIDADE

de tudo ao meu amor eu fui atenta
antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
que mesmo em face do maior desencanto
dele se encantava mais meu pensamento

quis vivê-lo em cada vão momento
em seu louvor cantei seu canto
ri seu riso e derramei seu pranto
vivi seu pesar ou seu contentamento

e assim quando mais tarde me encontrou
a indignidade, angústia de quem ama
ou a solidão, fim de quem vive

eu pude dizer algo do amor (que não tive):
que era mortal, posto que não mais inflama
sendo finito, como todos os que eu tive


(Curiosa)
[plagiando Vinícius de Moraes, claro - do seu Soneto da Fidelidade]

*feito em 2010 e reeditado em 06/01/2013
 ....

1.1.13

porque a Escrevente sente acabar o mundo quando namora

O TEMPO DO SEXO

fins-de-mundo sucumbem
pelo calendário de seu nome

eras psíquicas se sucedem
pelo sincretismo de seu nome

amores nascem e morrem
pelos desvãos de seu nome

grito seu nome - meu amor
e assim vou tecendo meu tempo:
a cada gozo - amanheço você

(Curiosa - dez/2010)

...

o que quero do ano que chega?
continuar viva ...
no mais ... desejo um ótimo 2013 para todos nós!


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